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Dionisio Rita

LiFe

"all of this is a dream, with the world inside of it"
11月6日

Por muito que explique, é difícil.

Por muito que explique, é difícil. É estranho, acima de tudo. A forma como o meu estilo de vida mudou foi brusca, mas face ao sentido de urbanidade de que agora disponho, sinto-me muito mais confortável. Tokyo é uma mega cidade mas, inexplicavelmente, encontro velhos amigos no comboio ou na “minha” vizinhança. É uma mega cidade composta de contradições, de contrastes, de diferenças, de complentariedades e acima de tudo, de surpresas. É extraordinariamente rápido como nos sentimos em casa em Tokyo, por muito que recordemos e adoremos os detalhes mais portugueses das nossas vidas. A “minha” vizinhança compõe-se por diversas áreas, incrivelmente distintas entre si e muito, mas muito distintas comparativamente aos lugares que habitava em Portugal. No entanto, sempre foram as diferenças que mais me cativaram, que mais motivaram o meu interesse por este país, cheio de lugares distintos entre si e distintos de tudo o que conheci. É impossível sintetizar um mês passado em Tokyo! É como tentar relatar algo suficientemente diferente dos nossos padrões, requerindo muitas e muitas contextualizações…mas no intento de contrariar aquele velho e redutor ditado do “Só visto, porque contado ninguém acredita”, proponho-me a tentar descrever-vos alguns dos momentos mais interessantes que vivi em Tokyo neste meu primeiro mês. Deixo a vocês a vontade de quer ou não querer saber mais! De nenhum país deve-se só expressar maravilhas, porque as maravilhas compõem os guias turísticos e os panfletos das agências de viagens, mas estão sempre, mas sempre um bocadinho longe de expressar a essência real de um qualquer lugar. Por outro lado, não quero elaborar análises culturais, porque um mês em qualquer sítio é pouco face ao conhecimento necessário para que o faça, pelo menos de forma justa. No dia em que cheguei, tive uma sensação de que o mundo é mesmo muito pequeno. A distância pareceu-me incrivelmente mais curta que da primeira vez. Tudo pareceu “já aqui”, não a escassas horas, mas ainda assim a horas de Portugal. Ao contrário da primeira vez, senti-me no mesmo mundo. Por outro lado, tenho vindo a aperceber-me de detalhes que da primeira vez me foram completamente alheios e que contribuem para que me sinta muito estranha, muito diferente e "alien" face ao que aqui se conhece. No entanto, ponho-me a imaginar como terá seria chegar aqui há 20 anos atrás e sinto-me muito melhor e mais confiante de que a diferença poderá, talvez, ser-me muito favorável. Sinto-me acima de tudo curiosa por saber mais, em que mais seremos diferentes de tudo isto. Como principais novidades no meu quotidiano aponto as meias de 5 dedos, comer com pauzinhos em praticamente todas as refeições à excepção dos petiscos das lojas de conviniência, a abundância de máquinas de bebidas nas ruas (quentes e frias), o meu tão adorado matcha late, os bolinhos de feijão e é claro a minha bicicleta chevrolet! O excesso de tudo também alterou o meu quotidiano. Um pacote de bolachas é supreendentemente composto pelo envólucro exterior (de plástico ou cartão), por um pacotinho interior de plástico onde as bolachas encaixam numa base de plástico e por fim cada bolachinha no seu pacotinho de plástico. Pois é, no Japão é demorado chegar a uma bolacha face à rapidez com que se enche a parte dos plásticos do lixo separado, que é obrigatório por cá. Já me tinha desabituado a ter de juntar moedas de 100 ienes a partir de cada sexta-feira para puder lavar a roupa durante o fim-de-semana, trazer sempre o ipod para o tempo que passo no metro e considerar seriamente como optimizar esse tempo. O saco de emergência é de todas as novidades a que mais me fez sentir num sítio diferente, de prioridades diferentes. Aqui é muito habitual e recomenda-se que cada pessoa tenha o seu saco de emergência, que deverá sempre ficar próximo da saída, no caso do alarme de emergência tocar. É estranho equacionar isto, mas tudo pode acontecer e o melhor é mesmo cumprir com o saco da emergência. Quanto a a arquitectices! Foi uma aventura inscrever-me nas cadeiras de mestrado, mas fiquei feliz por ter conseguido fazê-lo sózinha. Estão todas a correr bem, à excepção de uma que me saiu pela colatra, eheheh! Inscrevi-me numa cadeira chamada Environmental Risk Management e estava à espera de qualquer coisa relacionada com a gestão de riscos ambientais pois, eheheh! Mas a cada aula que passa, aprofundam-se imensas questões relacionadas com a qualidade da água, os niveis disto e daquilo e de que forma isso influencia a saúde da peixarada, considerando que há peixes mais tolerantes que outros a determinada substância. Muito interessante, mas não é para mim! vou ter de descalçar esta bota! eheheh! Relativamente a "arquitectices" mais práticas, tenho visto pouco da cidade mas do que tenho visto, posso dizer que algumas coisas mudaram! O edifício do 1st book store em Shibuya, onde há 3 anos ia ver livros de arquitectura e não só, deixou de existir e deu lugar a um buraco, possivelmente expectante, mas não por muito tempo. Fiquei muito contente de ver que apesar de toda a polémica não deitaram Shimokitazawa abaixo. Esta zona fica muito próxima de onde moro e todas as palavras são insuficientes para a descrever. Imaginem um sítio de proporções pequenas, escala muito humana, quase uma aldeia; com uma dinâmica urbana fervilhante, os mais diversos tipos de comércio e de pessoas. A sua densidade comercial deixa ainda espaço para interessantes supresas ao virar de cada esquina, como um pequeno templo que lá existe. A maior parte das ruas de Shimokita não deve ter mais do que 5 metros de largura, num mix pessoas, bicicletas e táxis! Durante o fim-de-semana, os pequenos passeios junto à estação de comboios enchem-se de "performers", grupos musicais a cantarem na rua, cativando a atenção de muitos transeuntes, que se rapidamente se concentram aos molhos. (continua...)
7月29日

Já não estou cá, mas ainda não estou lá

Já não me sinto presente nas minhas experiências em Lisboa. Sinto-me num grande não lugar, à espera de embarcar, à espera de partir. Sabem quando estamos num terminal, de um qualquer transporte, e na parede existe um grande, grande relógio visível de qualquer ponto da sala? Esse relógio emite, muitas vezes um estrondo sonoro a cada segundo e o tempo deixa de nos ser abstracto e passamos a sentir cada segundo da nossa presença inexistente naquele espaço... é isso que sinto. Sinto que estou para aqui à espera, a observar tudo com sentido de despedida... e sim, sinto que vou para não mais voltar, pelo menos como sou agora. Esta pessoa que vai não voltará, pois voltarei diferente com certeza. E a acrescentar a este sentimento de existência relacionada a um não lugar, sinto que gosto mais de tudo o que me rodeia porque sei que o vou deixar. Há um sentido de perda, porque sei que tudo continuará ao mesmo ritmo e as pessoas de quem gosto continuarão os seus percursos, mas tenho tido um grande sentido de ganho, porque sei, agora melhor, de quem e do quê é que sentirei saudade. De minha terra, dos lugares do algarve e de pessoas simples e bonitas. Terei saudades disso, disto, de tudo...na verdade já tenho saudades, mesmo antes de ir. É muito estranho, esta ideia de ir sem sentir que voltarei a mesma... e de sentir que mesmo que regresse, não encontrei os mesmos lugares da forma que agora os lembro, porque tudo muda a uma velocidade completamente desconecta da minha presença neste ou noutro lugar. Já partilhei estes sentimentos com algumas pessoas e sinto que em cada pessoa reside a vontade de ir, de ir a algum lado e acabo sempre por pensar que é porque cada pessoa quer mudar, mais que não seja num fim-de-semana até ao algarve. Sempre que vamos a algum lado, a ideia é voltarmos mais qualquer coisa, mais interessante, mais relaxado, mais feliz. A ida a qualquer sítio ou lugar será sempre uma procura de cada ser, em busca de qualquer coisa para se completar e é isso que sinto em relação à minha ida...vou completar qualquer coisa de mim, e possivelmente voltarei um eu que irei conhecer.
6月18日

100 dias, a jornada a um ápice

Faltam 100 dias para embarcar numa nova jornada! Anseio por isso :) porque aqui nada parece fazer grande sentido para mim, a perspectiva mudou! De novo água, depois de dois anos e meio em estado de rocha! Água... no sentido de sentir-me, de novo, mutável e inconstante, adaptável e transparente. No entanto foi bom restabelecer-me em terras lusas, assentar um bocado as ideias e aceitar algumas coisas que aconteceram... para agora sentir de novo o bicho carpinteiro, isto de viver num sítio por muito tempo secalhar não é pra mim, ou então gosto mesmo de acreditar que não... até um dia cansar-me ou encontrar um sítio com o qual me identifique verdadeiramente. Lamento desapontar-me a mim mesma, mas sei que o Japão ainda não o é... ainda tenho de experimentar mais uns sítios e ainda não sei quais.
Já lá vai imenso tempo que não escrevia aqui :) para meu agrado algumas coisas mudaram desde então ;) eu mudei nestes últimos meses, acima de tudo tenho-me ensinado a pensar de forma simples e tolerante para com muitas coisas e principalmente para comigo... e este é mesmo o highlight das novidades, aprendi a pensar de forma simples e ando numa de meditação sobre coisas que antes não me questionava sobre mim, sobre o que me rodeia... mas sem grandes ondas, sem grandes oscilações nas minhas reflexões. Restabeleci o equilíbrio, desenho desalmadamente até às tantas da noite e o stress tem andado escasso, mesmo em vésperas disto ou daquilo! A única fonte de oscilação nas minhas reflexões é mesmo o facto de me restarem 100 dias por aqui, sentir que estou prestes a mudar muita coisa no meu quotidiano, adeus carro e comodismo de uma vida de rocha... Olá "urban style", ipod nos ouvidos, mochila às costas e bicicleta como principal meio de transporte! Adeus fins-de-semana no Algarve... Olá Ásia e Olá Portugal uma vez ou duas por ano consoante calhar! Portugal é bom, é um país lindo, comida boa, pessoas animadas, mas a noção de tudo isto aviva-se assim que se sai!!! Ficar por cá muito tempo é dar cabo de uma boa ilusão... pelo menos por agora ;)
Os estudos de japonês têm corrido bem, aliás estou precisamente a fazer uma pausa, amanhã é o exame final ;) tem sido interessante e acho muita piada à gramática japonesa! A melhor forma de vos dar uma ideia da gramática japonesa é fazer-vos lembrar o Yoda da Guerra das Estrelas ;) para a gramática da língua japonesa vos poder explicar, do Yoda terão de se lembrar. Para uma qualquer frase construir, há que o verbo no fim da frase colocar!!!! AHAHAH é mesmo isto, sem tirar nem pôr!!! O Mestre Jedi tem muitas, mas muitas características de japonês, se tivesse de lhe atribuir uma nacionalidade ele não se escapava de nipónico! A sua calma, os passinhos curtos, um ligeiro ar atordoado e espantado antecedendo a momentos de perfeita sabedoria, ehhehehh! Tenho que rever a Guerra das Estrelas! Mas para amanhã no exame de japonês puder passar, estudar brevemente deverei recomeçar!!!!
2月20日

O Kosovo é um país e Lisboa afunda-se

Pois é, ontem ouvi dizer, na rádio, que o Kosovo agora é país. Isso possivelmente é bom para quem lá mora! Um novo país, saído de uma longa e dolorosa história com a Sérvia. Um novo país! Tudo para começar, tudo em arranque e daqui por 10, 15 ou 20 anos nós temos esta conversa, do Kosovo ser um país novo, mas os contornos da discussão serão, possivelmente, diferentes. O quão diferentes da outra notícia? de Lisboa a afundar-se? Resta esperar para ver qual o grau de empenho dos kosovares, na gestão do seu território, no seu sentido de pertença, de governança e na eficiência dos seus sistemas de (des)responsabilização. Ah isto é muito estranho, comparar cá o nosso país com o Kosovo! Aqui em Portugal, tudo é muito bom...se passarmos mais de 2 semanas fora do território nacional...Mas mesmo muito bom, com a franqueza de quem gosta e com a inocência de quem se esquece rapidamente ou desconhece! Passa-se cá um mês e em resultado, a memória torna-se efervescente e a inocência desvanece, embutida nos sentidos (des)democratizados das hierarquias impostas por quem indiques, hierarquias impostas por dar os 118% (ass kissing), enfim uma série avolumada de hierarquias! "sr.engenheiro! Não, não, sr.arquitecto! Por amor de Deus".

Mas voltando à questão de se estabelecer uma comparação entre um país tão velho e um país com um dia. Portugal, tão cheio de tradições e costumes, que já vêm lá dos primórdios da história do escarnio e mal dizer, onde falar de tudo e de todos sempre foi bom (mas nem sempre foi possível, devido ao medo imposto pela carrasca do Botas) acabando nos dias de hoje, que com isto dos blogs serem tão acessíveis, também é muita bom escrever mal de alguém ou de alguma situação! como de Lisboa a  afundar-se!  Lisboa a afundar-se já se previa! E o Kosovo tornar-se um país também. Constituia uma situação de terceiro mundo, se é que o termo ainda se utiliza. De qualquer forma, a história do mundo, ultimamente marcada por fenómenos de globalização, tem demonstrado que alguns países (que a nossos olhos, desfavorecidos e empobrecidos até à unhaca dos pés dos seus habitantes) tornam-se importantes economias emergentes. Será estranho imaginar que daqui por 20 anos o Kosovo possa atingir uma qualquer especialização nas tendências de desmobilização funcional e populacional que se têm revelado surpreendentes na Europa (dos 27)? E ao mesmo tempo será que daqui por 20 anos, nós portugueses, teremos maior sentido de responsabilização pelo que é nosso, pelo que muitas vezes dizemos que a nós nos pertence mas quando acontece qualquer coisa (água ou fogo) procurámos é safarmo-nos da questão? Será que haverá espaço aos debates, às vozes activas, à democracia proactiva? Porque se Portugal hoje não fosse país, será que teríamos voz activa para fazer dele país? Pena que quem pense nisso hoje em dia, é um sonhador, que incorre no risco, coitado, de ser considerado parvo por todos os seus pares. Enfim, Viva Portugal, que ainda é país!

 
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Le Corbusier
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